Crónica de Alice Vieira ao Harry Potter no JN:
E se lêssemos o Harry Potter?Eu sei que 1700 caracteres é coisa mínima para se dizer seja o que for, mas mesmo assim vou sair aqui em defesa da J.K.Rowling porque, como dizem os brasileiros, já estou de saco cheio com aquilo que sobre ela se escreve. Não é que a senhora precise da minha defesa para coisa nenhuma, mas que é que querem, fico profundamente ofendida quando, a propósito do "Harry Potter", os meus camaradas de escrita desferem uma olímpica seta de desprezo género "não li e não gostei".Até hoje ainda não encontrei nas páginas de jornais ou revistas uma crítica digna desse nome sobre as aventuras de Hogwarts. Ninguém leu - mas ah! como aquilo é mau, como aquilo não interessa a ninguém ... E o facto é que, por muito que doa a quem anda nestas lides, aquilo é muito bom. E não seria nada mau que aproveitassem estes dias de férias para pegarem num desses enormes volumes e descobrirem finalmente por que é que as histórias nos apanham, a nós, pobres muggles cinzentinhos, logo à primeira. É claro que a J.K. Rowling tem, para já, três desvantagens que lhe garantem, logo à partida, um olhar desconfiado dos seus parceiros é loira, é gira, e ganha dinheiro que se farta. Para além disso, não escreve livros para salvar o mundo, nem para ganhar o Nobel. Escreve livros - oh, sacrilégio! - para se divertir e para divertir quem os lê. Mas escreve-os bem, com uma criatividade que é- devia ser - uma lição para todos nós. Tem uma poderosíssima máquina publicitária por detrás ? Ah pois tem, e quem nos dera a nós todos também ter. Haverá por aí gente com obras magníficas que se calhar também mereciam igual sorte? Tenho a certeza que sim, mas não é disso que se trata. Do que se trata - sejamos mesmo, mesmo sinceros - é de uma enorme dor de cotovelo.
http://jn.sapo.pt/2005/08/07/opiniao/e_lessemos_o_harry_potter.html